Acontece com as mulheres


A maldição do telefone

 

Deus castiga, isso é fato. Eu que passei toda minha adolescência ouvindo sermão em virtude de contas fabulosas de telefone e que até hoje me aperto para não ultrapassar os malditos minutos do plano do celular fui me meter com ele que é o praticamente o Dalai Lama (porque dizer que é o Papa já está batido) das respostas monossilábicas.

 

É horrível, 99,7% das vezes, ele me atende como se fosse dominado por um mau humor ou como se estivesse atendendo uma ligação dentro de um cativeiro ou presídio.

 

E isso não é sinal de que ele está mal humorado ou não quer falar comigo. Acredite, não é. Até porque por inúmeras vezes, foi assim comigo no telefone e quando nos encontramos aquele ser mudo havia sumido.

 

Eu não entendo. Mesmo hoje que liguei para desejar boa sorte com o trabalho foi assim. E como sangue frio não é uma das minhas virtudes, já emendei “Que é? Tá mal humorado? Não qué fala?”. Silêncio. “Não, só o básico”. Sangue fervendo de um dos lados da linha. “Você que sabe, só tô ligando pra te desejar boa sorte hj!”.

 

E depois de cuspir as palavras quase não consegui “escutar” o beijo de tchau que vinha daquele ser de palavras curtas e pouco esclarecedoras.

 



Escrito por Nina às 17h22
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 Seria comum, se não fôssemos nós

 

Fazia tempo que não o sentia tão triste. Perguntei se eu podia ir ao seu encontro e ele respondeu “o mais rápido possível”.

A distância da cidade na hora do rush me fez demorar. Quando cheguei tudo estava melhor, havia recebido notícias boas. Sentamos num bar com amigos dele.

 

Até que um carro estacionou do outro lado da rua. “E aí? Conhece o sogrão”!? Eu grudei na cadeira e perdi um pouco o ar. Devo ter ficado pálida e, visivelmente sem reação, me bateu de novo “Conhece o sogrão?”. “Não”. E nos instantes que separavam aquele homem que descia do carro da porta da sua casa quase não pude respirar. O que ele vai dizer? Como vai me apresentar? “Essa aqui é a...”. Antecipei sozinha a situação embaraçosa. Nós dois continuamos sentados com os amigos dele. Alarme falso, certamente um homem parecido, mas não o pai dele.

 

Depois do susto e dos amigos fomos ao supermercado. E depois ele cozinhou para mim. Comemos. Dormimos. Foi uma noite típica para um casal, mas não para a gente. Porque não somos um casal. Amigos, supermercado, contas, discussões sobre a reforma da casa, jantar e colchão de casal.

 

O despertador tocou e nem nos demos conta disso. Atrasada, estava de pé num pulo. Depois me levou até a porta, me beijou e me abraçou. Tinha sido bom.

 



Escrito por Nina às 11h59
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