
Trem
Tem horas que a vida segue e só entramos no vagão sem sequer dar conta do itinerário ou puxar papo com quem viaja ao lado. Entramos egoístas no vagão cinzento e vemos todas as cores voarem pela janela. Não se quer estar lá fora e nem se pensa que essa é uma possibilidade porque o conforto de se sentir só dentro do vagão lotado não tem preço. E esse não ter preço não significa ser incalculável, mas sim, sem valor. Não se ganha nem se perde no vagão. É uma viagem na qual pouco se lembra do começo e não se sabe a que horas chega o fim. Não se sabe em qual ponto descer, quem será o próximo a subir e – às vezes – se lamenta que alguém tenha deixado o vagão no exato momento em que perguntaríamos “Que horas são?” ou qualquer coisa parecida que nos fizesse ter certeza de que ainda ouvimos, falamos e temos noções do tempo.
Aí ficamos ali sentados com um lugar vago ao nosso lado que as pessoas teimam em não sentar. Uma ou outra senta vez em quando e desce logo após descobrir que pegaram o trem errado.
A gente olha para a janela fingindo esperar novas cores e sempre olha pro assento vago com rabo de olho torcendo pra encontrar um passageiro que nos acompanhe até o ponto final.
Escrito por Nina às 17h54
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